A Vida de Lúcio



O mundo perfeito

Thursday, December 20, 2001




3.
Mas não abraçou, é claro. Melancolia, silêncio, timidez e rudez não combinam com abraço. Aprendeu a gostar dele ao vê-lo olhar para a mãe. Seria impossível não gostar de alguém com aquele olhar.





2.
Ele era um homem rude. Bom, mas rude. O mais impressionante é que, ao contrário do que parece, o rude pode ser extremamente delicado. Ele compreendia toda a delicadeza do olhar dela. E falava mais com o próprio olhar que com suas palavras escassas. Mas o rude também pode ser temeroso. E ele temia não os sentimentos, ou ela, mas algo muito mais amedrontador. Temia sua filha. Temia a inocência infantil que perdera há tanto tempo. E temia a reação da garota.

Crianças adoram bolo. Então levou bolo de côco. Mas ela odeia côco. E é criança. Não gostou de seu silêncio. Não gostou da melancolia em seus olhos. E adorava chocolate.

Ele aprendeu uma nova receita. E levou-lhe bolo de chocolate. Ela gostou. Mas continuava apreensiva com seu silêncio, e mais ainda com sua melancolia.

Ela tinha razões para ser apreensiva com sua melancolia. Ela a conhecia muito bem. Mas não a encontrava nos olhos de outros de sua idade. Sabia que era diferente e ao olhar para Lúcio, encontrou uma alma irmã. Mas era um homem. Um adulto. Um rude. Viu nele seu futuro, e ainda não sabia se gostara do que viu. E temeu. Temeu porque em seus poucos anos de idade, já percebera que ser feliz não é um prêmio concedido aos bons corações. Já percebera que ela podia seguir seus valores. Podia ser boa, justa e honesta. Podia ser tudo o que sua mãe orgulhosamente lhe ensinara. Mas nada disso lhe seria uma garantia. Nem isso, nem nada seria capaz de lhe dar segurança com relação ao que lhe aguardava.

Então seus olhos ficaram ainda mais baços. E melancólicos. E ela foi tomada por uma súbita vontade de abraçar o homem dos bolos. De senti-lo rude, calmo e quieto. Abraçá-lo para esquecer seus receios. Pois um homem que usa palavras jamais se perderá nelas.





1.
Ficavam bem na saída da estação de Metrô. Ele era um homem de poucas palavras. Ela, uma mulher de muitas histórias. Ele aprendera a não dizer nada em vão. Algumas palavras exigem cautela. Repetia apenas, incansavelmente: "bolo de côco, é só um real". Ela era corajosa, não temia palavras. Mas aprendera que um olhar ou um sorriso, podem expressar muito mais que palavras. Ela ficava a seu lado, e vendia maçãs do amor.

No início, não se gostavam muito. Não era declarado. Cumprimentavam-se com um "bom dia" tímido, e começavam a trabalhar, sem mais se olharem. Achavam que um prejudicava o outro. Alguém podia preferir bolo a maçã. Outro, maçã a bolo. Mas, com o tempo, viram moças que compravam maçã para si, e bolo para levar para a mãe. Outra, comprava bolo para levar para casa - o marido adorava - e maçãs carameladas para as crianças. Talvez não se atrapalhassem afinal.

- Os bolos são bonitos, parecem bons. Quem faz?
- Eu mesmo. Vivo só.
- Você mesmo faz? Que homem prendado.
- Tem que ser. Vivo só.

Chega. Olhares demais para um dia. "Bolo de côco, é só um real". "Maçãs do amor, deliciosas".

Dia seguinte.

- A menina precisa estudar. E precisa de lazer.
- Quem?
- Minha filha. Estuda de manhã e, à tarde, prepara as maçãs pra eu vender no dia seguinte. Mas precisa fazer o dever. E precisa de lazer, tem só dez anos. Mas preciso da ajuda.
- Seu marido não pode ajudar?
- Sou mãe solteira.

Foi o maior diálogo que tiveram. Mas, a partir dele, conversavam com os olhos. Não mais evitavam se olharem. Um dia, ela lhe ofereceu uma maçã do amor. Não foi preciso falar. Estava no olhar. Abraçaram-se. No dia seguinte, o balaio era um só. Vendiam bolos e maçãs.



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